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O 'Roubo' que Mudou a História de Belém e da Amazônia — e Suas Lições Para a Cidade da COP30

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19 de novembro de 2025
Redação Voz da Pátria
O 'Roubo' que Mudou a História de Belém e da Amazônia — e Suas Lições Para a Cidade da COP30

Em 1876, um inglês chamado Henry Wickham contrabandeou 70 mil sementes de seringueira (Hevea brasiliensis) da Amazônia para a Inglaterra. Esse ato aparentemente simples desencadeou o colapso da economia da borracha na Amazônia, transformou Belém de 'Paris N'América' em uma cidade com 57% da população vivendo em favelas, e deixou lições cruciais para a COP30 que a cidade sediará em 2025.

A Belle Époque Amazônica

Entre 1879 e 1912, a Amazônia viveu seu período mais próspero: a Era da Borracha. Belém e Manaus se tornaram cidades riquíssimas, exportando látex para alimentar a crescente indústria de pneus e produtos de borracha da Europa e dos Estados Unidos.

Belém ganhou o apelido de 'Paris N'América'. A cidade tinha bondes elétricos, iluminação pública, teatros suntuosos, palacetes art nouveau, boulevards arborizados e uma elite que importava roupas de Paris e vinhos da França. O Teatro da Paz, inaugurado em 1878, recebia óperas europeias. A riqueza parecia inesgotável.

O Contrabando das Sementes

Em 1876, o botânico inglês Henry Wickham, a serviço do Império Britânico, coletou 70 mil sementes de seringueira e as contrabandeou para a Inglaterra. As sementes foram plantadas nos jardins Kew Gardens em Londres, e as mudas enviadas para colônias britânicas na Malásia, Ceilão (atual Sri Lanka) e Sudeste Asiático.

O objetivo era claro: quebrar o monopólio brasileiro da borracha e tornar o Império Britânico independente dessa matéria-prima estratégica.

O Colapso Econômico

Em 1910, as plantações asiáticas começaram a produzir borracha em larga escala. Diferentemente da extração extrativista amazônica, as plantações eram organizadas, eficientes e baratas. Em poucos anos, a Ásia dominou o mercado mundial.

O preço da borracha despencou. A economia amazônica entrou em colapso. Belém e Manaus, que viviam exclusivamente da exportação de látex, viram sua riqueza evaporar. Palacetes foram abandonados, teatros fecharam, e a população entrou em profunda crise econômica e social.

De Paris N'América a Capital das Favelas

Belém, que ostentava riqueza e modernidade no início do século XX, entrou em longo declínio. Sem diversificação econômica, a cidade não conseguiu se reerguer. Nos anos seguintes, a falta de investimento, o abandono de infraestrutura e a migração de famílias pobres em busca de oportunidades criaram enormes áreas de ocupação irregular.

Hoje, Belém é a capital brasileira com maior percentual de população vivendo em favelas: impressionantes 57% dos habitantes residem em áreas precárias, segundo dados do IBGE. A cidade que já teve padrões europeus de urbanização convive com saneamento básico deficiente, violência urbana e desigualdade extrema.

As Lições Para a COP30

Em 2025, Belém sediará a COP30, a mais importante conferência mundial sobre mudanças climáticas. A escolha da cidade amazônica é simbólica: Belém está no coração da maior floresta tropical do planeta, crucial para o equilíbrio climático global.

No entanto, a história do ciclo da borracha oferece lições duras que não podem ser ignoradas:

1. Dependência de Monocultura é Perigosa

A economia amazônica do século XIX dependia exclusivamente da borracha. Quando essa fonte secou, não havia alternativa. A COP30 precisa impulsionar diversificação econômica sustentável na Amazônia, evitando dependência de commodities únicas.

2. Biopirataria Continua Ameaçando

O contrabando de sementes de 1876 foi biopirataria. Hoje, a Amazônia continua sendo alvo: empresas estrangeiras patenteiam conhecimentos tradicionais indígenas, roubam recursos genéticos e exploram biodiversidade sem compensação justa. A COP30 deve fortalecer mecanismos de proteção da biodiversidade amazônica.

3. Riqueza Natural Não Garante Desenvolvimento

A Amazônia é a região mais rica em biodiversidade do planeta, mas suas populações estão entre as mais pobres do Brasil. A riqueza natural precisa se converter em desenvolvimento humano real: educação, saúde, infraestrutura e oportunidades econômicas.

4. Sustentabilidade Não é Luxo, é Sobrevivência

O colapso da borracha mostrou que exploração predatória sem planejamento leva ao desastre. A COP30 deve promover modelos de desenvolvimento que equilibrem preservação ambiental e prosperidade econômica.

Belém Hoje: Entre o Passado e o Futuro

Belém se prepara para receber a COP30 com investimentos em infraestrutura: renovação do porto, ampliação do aeroporto, construção de centros de convenções e revitalização de áreas degradadas. O governo federal e estadual prometem transformar a cidade.

Mas os desafios são gigantescos: 57% da população vive em favelas, o saneamento básico atende apenas 30% dos domicílios, e a violência urbana é crônica. A pergunta crucial é: a COP30 deixará legado real para os belenenses ou será apenas mais um evento internacional que passa sem transformar vidas?

O Risco de Repetir Erros

Há o risco de que a COP30 seja um novo 'ciclo da borracha': um período de investimentos concentrados, euforia temporária e, depois, abandono. Para evitar isso, os recursos investidos precisam ter visão de longo prazo, com programas contínuos de educação, saúde, habitação e geração de renda sustentável.

Conclusão

A história das 70 mil sementes roubadas em 1876 não é apenas curiosidade histórica. É um alerta: a Amazônia já foi explorada, saqueada e abandonada antes. A COP30 é oportunidade única de mudar esse ciclo, mas somente se houver compromisso genuíno com as populações amazônicas e com a construção de um modelo de desenvolvimento que respeite a floresta e seus habitantes.

Belém pode ser novamente a 'Paris N'América' — mas dessa vez, uma Paris sustentável, inclusiva e justa. Ou pode repetir o erro de depender de um único evento, sem planejamento para o amanhã. A escolha está sendo feita agora.

A história não perdoa quem não aprende com ela.